RESENHAS LITERÁRIAS

Considero “Pó de Serra” e “Apesar do Amor”, de Marli Walker, um marco para a literatura mato-grossense. Walker inaugura a visão realista sobre o desbravamento das terras nativas, fazendo uma contraposição evidente com o idealismo típico dos primeiros autores. Não sei realmente se os críticos Mário César Silva Leite e Marta Cocco estão corretos em afirmar ter havido um projeto literário parecido com o que se viu em termos nacionais após a independência: a visão grandiloquente da terra e do homem. José de Mesquita, irmão intelectual de D. Aquino, retrata a figura do bandeirante como o introdutor da salvadora fé cristã em Cuiabá:

O lançamento de um novo livro é desafiador para qualquer escritor que tome a literatura como propósito. A vertigem ganha contornos dramáticos quando o autor já alcançou o reconhecimento público em vida. Admiradores e críticos sempre se pautarão pelas impressões sedimentadas diante do conforto intelectual em palmilhar um estilo conhecido, explorado, amplamente comentado. Por isso mesmo, não raras vezes, os autores fecham-se em preciosismos estéticos, patrulham-se por detalhes insignificantes, flagelam-se com duras autocríticas e, no mais das vezes, evitam novos desafios. Não é o caso de Lucinda Persona, felizmente. A autora desafia a confortável consagração que amealhou nos 25 anos de carreira literária, com prêmios nacionais e regionais, trabalhos acadêmicos sobre a obra poética e centenas de resenhas favoráveis. Lançou “O passo do instante” e mostrou que o invulgar fôlego literário está longe de acabar.

Na resenha anterior, pretendi mostrar como a terra influencia a literatura em seus diversos momentos históricos, mais especificamente fenômenos ligados à Cuiabá e suas transições no tempo e espaço. Tracei um paralelo entre o cânone “aquiniano” que pretendia idealizar a imagem mato-grossense e cuiabana como uma espécie de Éden, cruzando-se raças fortes e corajosas, com a poesia da geração seguinte que se viu aturdida com o crescimento da cidade.

Os modelos quando se enfeixam para um centro, como se obedecessem alguma forma especial de gravidade chamam-se de arquétipos. O arquétipo é uma forma consagrada que induz ao mimetismo. De certa forma, consciente ou inconscientemente, estão tão entranhados no imaginário de um povo que servem de amálgama identitário. Do berço grego que urdiu a cultura ocidental há vários arquétipos. Destaco a rivalidade entre dois irmãos que chegou ao maior cânone literário ocidental, Shakespeare como o seu Hamlet.

Em qualquer inventário, sobretudo o literário, importa tanto saber o que está arrolado, quanto o que está esquecido. É que o que o autor não diz pode ser mais importante do que a própria escrita. Esse tipo de arrolamento é prazeroso em autores que escondem propositalmente a intenção, ou ainda, escondem-se nas palavras. Talvez tenhamos aí um bom termômetro para mensurar a densidade de uma obra e, por isso, quero destacar a poeta Divanize Carbonieri que pipocou pronta para o consumo nacional, temperada com sal e pimenta, nas duas obras publicadas recentemente pela Editora Carlini e Caniato – Entraves e Grande Depósito de Bugigangas.